sexta-feira, 7 de agosto de 2026

elementar

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  É engraçado que eu vivo falando que queria reler O Nome da Rosa ou que eu não lembro de algumas coisas, porque foi uma leitura tão intensa que quase me gerou uma reação traumática de apagar certas memórias. Eu nunca voltei pra escrever sobre essa leitura do meio pro fim, ou depois de terminar, até agora. 

  Abaixe um dedo se seu pai, que estava envolvido na campanha do imperador romano-germânico Ludovico V, te tirou do mosteiro em que você era noviço em Melk, na Áustria e te levou pra Itália, mas não tinha muito o que você fazer lá então recomendaram que você ficasse como aprendiz de um frei franciscano chamado Guilherme de Baskerville que estava viajando pelo país em direção a uma abadia nas montanhas, e ao chegarem lá, descobrem que houve um assassinato e a reputação de argúcia do seu mestre faz com que o abade peça pra ele investigar o crime, então vocês saem andando pelo local, mas você também teve visões apocalípticas ao contemplar a fachada da igreja da abadia, cheio de entalhes de visões com Jesus, anciãos, anjos e santos no trono dos céus, bem como demônios, monstros, bestas e condenados no inferno, e após isso, seu mestre encontrou um veterano dele, Ubertino de Casale, e tiveram uma longa conversa sobre a reunião de franciscanos que está pra acontecer na abadia, motivada pelo debate sobre a pobreza da Igreja, que é de interesse tanto do Imperador quanto do papa João XXII, e ainda por causa disso, Ubertino e Guilherme debatem, entre outras coisas, sobre polêmicas recentes envolvendo ordens e grupos heréticos, e Ubertino condena o pecado da luxúria com um fervor que faz você, um jovem e ingênuo noviço, começar a se sentir tentado...


ilustração da versão HQ do livro

    É a trend que o meu amigo Adso faria se ele vivesse atualmente, mas como ele é um monge ficcional do século XIV ele escreveu, já idoso, as memórias sobre esses estranhos e insólitos acontecimentos. O que gerou o livro O nome da Rosa. A confusão do parágrafo anterior foi proposital, em homenagem a prosa do livro. Não que ela seja confusa. ela é densa, estilizada na formação das frases, cheia de citações em latim e meditações; ou seja, coerente com um letrado medieval. E principalmente, é cheia, cheinha de contexto histórico e filosófico, o que o livro (na forma do narrador-autor Adso escrevendo do futuro) até recapitula pra gente algumas coisas, mas em muitos momentos durante a leitura me dá uma sensação quase de ansiedade, tanta é a riqueza do texto, porque é como se abrissem vários portais, e eu só sou capaz de olhar a superfície deles. Isso aconteceu principalmente nesse capítulo da conversa de Guilherme e Ubertino. E isso não é de forma nenhuma uma experiência negativa, pelo contrário. Dizem que um grande livro te ensina a ler ele, e é o que tá acontecendo comigo, inclusive algumas coisas eu ficava nossa, não é possível que isso tenha existido de verdade, deve ser invenção do Umberto Eco... ao mesmo tempo sabendo que a realidade é sempre mais imprevisível que qualquer ficção. É a arte imitando a vida que imita a arte. 

Então vou elencar algumas coisas após breves pesquisas e uma releitura do capítulo em questão: 

1. Joaquimismo / aka messianismo, milenarismo (o livro foi publcado em 1980) e canudos

2. Fraticelli - exílio de avignon

3. Clara de Montefeau e Angela de Folignio

conspirações/fake news/ bolsonarismo

*** bom, continuando de onde eu parei em setembro de 2025…*

    Mas aqui eu queria explicar os pontos que elenquei ali, principalmente o último. Nesse livro eu descobri muita, muita coisa social e política que estava acontecendo na Europa, e principalmente na Itália nos anos 1300 e até um pouco antes. E o autor tem a habilidade desgraçada de te fazer sentir que esses fatos são extremamente interessantes e relevantes pra sua vida. O Joaquimismo por exemplo foi um dos principais movimentos a favor da pobreza e que fizeram as pessoas e certos membros de certas ordens da igreja largarem tudo e viverem perambulando porque o que importava era o reino dos céus e não esse mundo. 

    O debate sobre a pobreza, que é o pano de fundo do enredo do livro, era uma questão muito polêmica porque se a Igreja reconhecesse a pobreza de Jesus, ela teria que abrir mão dos intermináveis tesouros que ela tinha. Até imagem de Jesus com bolsinha de ouro eles encomendavam pra apoiar esse ponto de vista. 

    Por outro lado, os movimentos relacionados ou impulsionado a pela doutrina da pobreza eram um problema pra Igreja não só por causa de críticas teológicas, mas porque às vezes inspiravam levantes populares, quase que como seitas, baseadas em “ensinamentos proibidos”, heréticos. E o discurso contra eles era justamente de que iam perturbar a ordem, queimar propriedades, matar homens, mulheres e criancinhas de bem (e algumas vezes isso aconteceu mesmo)… sim, meus amigos, o fantasma do comunismo já rondava a Europa muito antes do próprio comunismo existir. 

    E por isso eu anotei ali bolsonarismo, que na verdade eu uso como atalho pra me referir a condições que lavam as pessoas ao extremismo. Porque como o próprio livro coloca, as pessoas não escolhem a qual heresia se juntar, elas simplesmente não tem perspectiva de vida nenhuma, estão morrendo de fome, e aparece algum pregador dando voz a essa dor, fazendo elas se sentirem vistas. Só que o problema é que esse líder também tem interesses próprios, e às vezes são até nobres, outras não, mas é muito difícil controlar o rumo que as coisas tomam quando você tem centenas de pessoas se juntando à sua causa. E às vezes essas pessoas que se juntaram, que são pobres e miseráveis, também tem a capacidade de fazer coisas horríveis, em nome de uma suposta causa justa. E elas estão justificadas nisso? 

    Tem um episódio que é narrado, eu não lembro mais os detalhes, perdão, de um movimento herético que saiu massacrando judeus por várias cidades e por último encurralou todos numa torre e matou até o último homem, mulher e criança. Por mais que seja algo sim da história medieval, é impossível não pensar no evento muito mais recente, poucas décadas antes da publicação de O Nome da Rosa, em que essa mesma coisa se repetiu na Europa. E lendo agora, também nos massacres que continuam acontecendo contra outros povos, principalmente o da Palestina que é o que é mais debatido. O grande trunfo desse livro é apresentar essas coisas com muito mais nuance do que eu poderia narrar em um post, sinceramente, eu não consigo fazer justiça. E também, que apesar de você estar lendo sobre outra época, nada parece mais contemporâneo, é até nas diferenças você vê que pessoas são sempre pessoas em qualquer tempo, pra o bem e pra o mal. 


    Esses dias eu falei que se fosse fazer uma tatuagem seria esse desenho, o mapa da biblioteca, só pra deixar registrado que é muito sério kkkkkkk. Mas só teria graça se fosse com as letrinhas, ou seja, teria que ser enorme. E eu não vou falar o que elas são porque apesar de ser contra a ideia de spoiler, muita gente não é. 
    Bom, esse post foi resgatado por causa do BEDA (ou BEWA mais precisamente), e essa semana eu fui engolido por várias coisas, aí hoje voltei aos rascunhos e encontrei essa preciosidade. E senti que não fazia sentido postar sem completar, o que acabou ficando muito maior que o rascunho.  O que me lembra que eu ainda não assisti a adaptação desse livro em ópera, que passei tanto tempo procurando...

BÔNUS 

eu amo as fanarts desse artista e ele fez um mês inteiro dedicado a o nome da rosa, e na verdade eu descobri através do site no neocities. Tem um outro lá com tema medieval que é uma das coisas mais maravilhosas que eu já vi e voce passa tempo descobrindo todas as coisinhas em cada página, mas nunca que tenho coragem de tentar fazer algo assim. 

https://www.tumblr.com/pseudepigraphon/735351339020845056/name-of-the-rose-november-days-17-18-19-20

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